Por que os Brasileiros não Leem?

 


Dados recentes da 6ª edição da pesquisa Instituto Pró-Livro, intitulada Retratos da Leitura no Brasil, indicam uma queda significativa no número de leitores no país, com redução de aproximadamente 6,7 milhões de pessoas entre edições recentes. Além disso, o levantamento aponta que 53% da população brasileira não leu nenhum livro, inteiro ou em partes, no período analisado (Instituto Pró-Livro, 2024). 

Esse cenário evidencia um declínio no hábito de leitura no Brasil, reforçado pelo fato de que a média anual de leitura por habitante caiu para cerca de 5,61 livros por ano, número inferior ao observado em edições anteriores da mesma pesquisa. Observa-se, ainda, que a leitura permanece concentrada em grupos específicos da população, indicando desigualdade no acesso e na prática leitora. 


 



 
         


Historicamente, entretanto, o país apresentou indicadores mais positivos. Entre 2005 e 2015, aproximadamente 56% da população era considerada leitora, o que demonstra uma retração significativa ao longo das últimas décadas (Instituto Pró-Livro). Tal comparação permite identificar uma transformação relevante nos hábitos culturais da sociedade brasileira. 






Para compreender essa mudança, é necessário considerar o contexto estrutural do período anterior. Entre os anos 2000 e 2015, consolidou-se no Brasil um conjunto de fatores institucionais que favoreciam a leitura. Segundo dados do Instituto Pró-Livro, os principais materiais lidos eram livros didáticos, obras exigidas pelas escolas, textos religiosos e conteúdos voltados à informação pessoal. Isso sugere que a leitura estava fortemente associada a obrigações educacionais e práticas institucionais. 

Nesse sentido, a leitura pode ser interpretada como um instrumento de mobilidade social, vinculada ao acesso ao ensino superior, à aprovação em concursos públicos e à qualificação profissional. Trata-se, portanto, de uma prática frequentemente orientada por objetivos pragmáticos, e não necessariamente por interesse cultural ou prazer individual — interpretação sustentada pela predominância de leituras obrigatórias no período. 

Adicionalmente, políticas públicas educacionais desempenharam papel relevante nesse processo. Durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, houve expansão significativa do ensino superior, com programas como o Programa Universidade para Todos (ProUni) e o fortalecimento do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES). Tais iniciativas ampliaram o acesso à educação formal e, consequentemente, aumentaram a demanda por leitura, ainda que motivada por exigências acadêmicas. 

Paralelamente, programas de incentivo ao acesso ao livro, como o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), contribuíram para a democratização do material de leitura, distribuindo acervos a escolas públicas em todo o país. Esse processo ampliou o acesso físico ao livro, reduzindo barreiras econômicas. 

Outro fator relevante foi a melhoria das condições socioeconômicas em determinados períodos, especialmente com o crescimento da chamada classe C, impulsionado por políticas de valorização do salário mínimo e programas de transferência de renda, como o Bolsa Família. Esse contexto favoreceu o consumo cultural, incluindo o acesso a livros. 

Entretanto, nas últimas décadas, observa-se uma reconfiguração desse cenário. A redução ou reformulação de políticas públicas voltadas ao livro e à leitura, associada à fragilização de estruturas escolares — como bibliotecas e projetos de incentivo — contribuiu para a diminuição do contato sistemático com a leitura. 

Simultaneamente, a crescente digitalização da sociedade introduziu novas formas de consumo cultural. De acordo com a pesquisa do Instituto Pró-Livro, a falta de tempo é apontada por 55% dos não leitores como principal motivo para a ausência de leitura. Tal justificativa pode ser interpretada como reflexo de mudanças no uso do tempo livre, cada vez mais ocupado por conteúdos digitais de consumo rápido, como redes sociais e vídeos curtos. 






Nesse contexto, a leitura deixa de ser uma prática institucionalmente sustentada e passa a depender, em maior medida, da escolha individual. No entanto, como o hábito não se consolidou culturalmente de forma ampla, essa transição resulta em queda no número de leitores. 
Além disso, observa-se que o nível de escolaridade continua sendo um fator determinante: quanto maior a escolarização, maior a probabilidade de leitura. Isso indica que fragilidades na educação básica impactam diretamente a formação de leitores, reforçando desigualdades estruturais. 
 
Dessa forma, a queda na leitura no Brasil não pode ser atribuída exclusivamente a fatores individuais, como desinteresse ou falta de disciplina. Trata-se de um fenômeno multifatorial, relacionado à redução de políticas públicas, às transformações no sistema educacional e às mudanças no ambiente cultural e tecnológico. 

Conclui-se, portanto, que o Brasil não deixou de ler de forma abrupta, mas perdeu parte das estruturas que sustentavam o hábito de leitura. Para reverter esse cenário, torna-se necessário articular políticas públicas consistentes, fortalecer o papel das instituições educacionais e adaptar a leitura às novas dinâmicas digitais, promovendo seu acesso e relevância no contexto contemporâneo. 


 

 

 

Fontes: 

https://ceoworld.biz/2024/06/03/ranked-countries-that-reads-the-most-books-2024/

https://lectupedia.com/en/number-of-books-read-in-each-country/ 

https://www.prolivro.org.br/wp-content/uploads/2025/06/Retratos-da-Leitura_COMPLETO_com2-3capa-1.pdf?utm_source.com 

https://www.prolivro.org.br/wp-content/uploads/2020/07/Pesquisa_Retratos_da_Leitura_no_Brasil_-_2015.pdf?utm_source.com 

https://www.gov.br/fnde/pt-br/acesso-a-informacao/legislacao/resolucoes/2002/resolucao-cd-fnde-no-8-de-1-de-marco-de-2002 

https://www.gov.br/fnde/pt-br/acesso-a-informacao/legislacao/resolucoes/2008/resolucao-cd-fnde-no-20-de-16-de-maio-de-2008 

https://cbl.org.br/2017/09/governo-federal-esta-desde-2014-sem-comprar-livros-de-literatura-para-escolas-publicas/ 

 

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